quarta-feira, 27 de agosto de 2025

Artur Gomes 77

 


27 de agosto
com muito gosto
fazer setenta e sete
outra coisa me disse
fulinaíma
pra definir o que faço
o traço a cada compasso
pensado sentido vivido
estando inteiro
não par/ti/do
a língua ainda
entre/dentes
a faca
ainda mais afiada
a carNAvalha in/decente
escre/v(l)er
é tudo o que posso
pra desafinar os contentes
desempatar de/repente
o jogo dos reles bandidos
é tudo o que tenho feito
por mais que tenha sofrido
nas unhas dos dedos
nos nervos
na carnadura dos ossos

Artur Gomes

Hoje Balbúrdia PoÉtica especial
no Carioca Bar - Rua Francisca Carvalho de Azevedo, 17
Parque São Caetano - Campos dos Goytacazes-RJ
Espero vocês lá, a partir das 18h

leia mais no blog
Artur Fulinaimagens
https://fulinaimargens.blogspot.com/


terça-feira, 26 de agosto de 2025

juras secretas


fosse o que eu quisesse 
apenas um beijo roubado em tua boca 
dentro do poema nada cabe 
nem o que sei nem o que não se sabe 

e o que não soubesse 
do que foi escrito 
está cravado em nós 
como cicatriz no corte 
entre uma palavra e outra 
do que não dissesse  

Jura secreta 11

 engenho 484 

para jiddu saldanha 

arrancar do gesto 
a palavra chave 
da palavra a imagem xis 
tudo por um risco 
tudo por um triz 

o trem bala (cospe esqueletos 
no depósito da Central) 
fuzil pode ser nosso brinquedo: 
novo enredo para o próximo carnaval 

Jura  secreta 12

Sargaço em tua boca espuma

 

 em Armação de Búzios

 tenho um amor sagrado

guardado como jura secreta

que ainda não fiz para Laís

 

em teus cabelos girassóis de estrelas

que de tanto vê-las o meu olho  vela

e o que tanto diz  onda do mar  não leva

da areia da praia onde grafei teu nome

para matar a sede e muito mais a fome

 

entranhada  na carne como flor de Lótus

grudada na pele como tatuagem

flutuando ao vento como leve pluma

no salgado corpo do além mar afora

 

sargaço em tua boca espuma

onde moram  peixes  - na cumplicidade

do que escrevo agora

 Jura secreta 13 


o tecido do amor já esgarçamos 
em quantos outubros nos gozamos 
agora que palavro Itaocaras 
e persigo outras ilhas 
na carne crua do teu corpo 
amanheço alfabeto grafitemas 

quantas marés endoidecemos 
e aramaico permaneço doido e lírico 
em tudo mais que me negasse 
flor de lótus flor de cactos flor de lírios 
ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse 
Hilda Hilst quando então se me amasse 

ardendo em nós salgado mar e Olga risse 
pulsando em nós flechas de fogo se existisse 
por onde quer que eu te cantasse ou Amavisse 

Jura secreta 14 


eu te desejo flores lírios brancos 
margaridas girassóis rosas vermelhas 
e tudo quanto pétala 
asas estrelas borboletas 
alecrim bem-me-quer e alfazema 

eu te desejo emblema 
deste poema desvairado 
com teu cheiro teu perfume 
teu sabor teu suor tua doçura 

e na mais santa loucura 
declarar-te amor até os ossos 

eu te desejo e posso : 
palavrArte até a morte 
enquanto a vida nos procura

Jura secreta 15

leminskiAna 

o estado pode ser de choque 
ou quem sabe até de surto 
o soco pode ser no estômago 

a facada pra  ferir o fígado 
o bandido me assaltar na via 
o sangue explodir na veia 
a vodka só me dar azia 

todo instante que vier eu curto 
a palavra que pintar eu furto 

tudo o que eu faço é poesia.  

Jura secreta 16

 para may pasquetti 

fosse esta menina Monalisa 
ou se não fosse apenas brisa 
diante da menina dos meus olhos 
com esse mar azul nos olhos teus 

não sei se MichelÂngelo 
Da Vinci Dalí ou Portinari 
te anteviram no instante maior da criação 


pintura de um arquiteto grego
quem sabe até filha de Zeus 


e eu Narciso amante dos espelhos 
procuro um espelho em minha face 
para ver se os teus olhos 
já estão dentro dos meus

Jura secreta 17 

meu objeto concreto 
é um poema abstrato 

impressionista realista 
quem sabe neo concretista 
poderoso artefato 

uma bomba de Hiroshima 
uma rosa parafina 
ou quem sabe uma menina 
que conheci só no retrato 

 

  Jura secreta 18

 

te beijo vestida de nua
somente a lua te espelha
nesta lagoa vermelha
porto alegre caís do porto
barcos navios no teu corpo

os peixes brincam no teu cio
nus teus seios minhas mãos
as rendas finas  que vestias
sobre os teus pêlos ficção

 

todos os laços dos tecidos
aquela cor do teu vestido
a pura pele agora é roupa
o sabor da tua língua
o batom da tua boca
tudo antes só promessa
agora hóstia entre os meus dentes

 

e para espanto dos decentes
te levo ao ato consagrado
se te despir for só pecado
é só pecar que me interessa


 
Artur Gomes

Juras Secretas

Editora Penalux  2018

www.secretasjuras.blogspot.com

domingo, 24 de agosto de 2025

com os dentes cravados na memória

Balbúrdia PoÉtica

 

Federico rasgou a rede

cortou a censura

colocou a dita/dura

                     na parede

 

poesia ali na mesa

geleia geral – relâmpagos

faíscas da surpresa

 

diariamente no blog

https://fulinaimagemfreudelerico.blogspot.com/

LEMINSKI E OS PERRENGUES DA BRUTALIDADE JARDIM

Há situações que poucos artistas gostam de mencionar, mas que considero importantes testemunhos para o entendimento de uma época.

Convivi muito com Paulo Leminski na segunda metade dos anos 80. Ele estava tentando se estabelecer em São Paulo e ficou hospedado no apartamento da cantora Fortuna, minha namorada na época. Já o conhecia e tínhamos um vínculo vigoroso, que se fortaleceu ainda mais no convívio quase diário deste período.

Leminski, ao contrário do que muitos pensam, era famoso em vida, tanto quanto um poeta pode ser. Mas, mesmo com sua intensa atividade criativa - e jornalística também - e com a repercussão de sua arte e de seu pensamento, passava perrengues do ponto de vista da sobrevivência.

Lembro de muitas situações e lembro vivamente de suas palavras, repetidas em diferentes circunstâncias: "O nível de competição no sistema capitalista está chegando a um estágio darwiniano."

Trocando em miúdos, em nosso bom e velho portuga-brazuka, o que ele estava dizendo era: "a sobrevivência está se tornando e se tornará cada vez mais barra pesada."

A minha leitura é que ele intuía com nitidez o neoliberalismo brutal que estava se instalando. Estou falando de um contexto que remonta há mais de 35 anos.

Um panorama dominado pelo culto exacerbado ao dinheiro, pela competição desmedida para consegui-lo, e pelo consequente desprezo pelas coisas da imaginação e do espírito criativo. Desprezo que chegou ao auge na era bozozóica, mas que já vinha sendo preparado pela entronização suprema do Deus Mercado, em que o "valor" das coisas criativas é avaliado quase que unicamente pelo seu sucesso de vendas.

Lembro muito bem das palavras de Leminski em uma entrevista: "Escritores acham indecente a ideia de o livro ser subvencionado pelo Estado em Cuba, mas não acham indecente seus processos criativos passarem pelo crivo de editoras comerciais, o que vale dizer, pelo mercado." Cito de memória, mas para os menos apressados, há um vasto campo de reflexão nessas palavras.

É possível que intuísse que neste panorama não haveria mais espaço para sua existência física, a existência de "um poeta em tempo integral", como se auto definia e como comprovava quem partilhava de seu cotidiano. Alguém entregue 24 horas por dia ao exercício do pensamento e da atividade criativa - por consequência, inábil e sem paciência para o mundo cão da sobrevivência.

Hoje o mercado e, felizmente, seus herdeiros, parecem faturar razoavelmente bem com sua obra. Algo que ele mesmo não conseguiu usufruir.

E isso diz muito a respeito de uma época. Época cão - sem ofensas a nossos queridos e adoráveis animais domésticos.

 

Ademir Assunção


Artur Gomes

poeta.ator.vídeo maker

por Federika Lispector - texto escrito em  2016

 

Artur Gomes é um poeta ímpar, o conheci quando estudei na então Escola Técnica Federal de Campos, e ele era Coordenador da Oficina de Artes Cênicas, isso lá pelos idos de 1987. Na época ele montava com alunos da Oficina o espetáculo teatral: A Ciranda do Boi Cósmico, uma encenação de teatro de rua,  inspirada no folclórico Boi Pintadinho.  Desde então me encantei com o seu múltiplo  trabalho, imprimindo poesia nas mais diversas plataformas.

Com a Oficina de Artes Cênicas da ETFC criou a sua marca com o Teatro de Improviso, encenando mais de uma centena de Espetáculo, no período em que lá esteve de 1975 a 2002. Com Poesia Falada até hoje percorre o Brasil soltando o verbo nos mais diferentes espaços, para os mais diversos tipos de público.

De 2007 para cá, depois de colocar sua poesia no papel, no teatro, em tecidos, em vitrines etc, passou também a se utilizar do áudio visual como plataforma para a disseminação da sua voz poética, e já soma uma centena de vídeos.poesia espalhados pelo youtube  facebook. Minha fascinação pelo seu trabalho, se dá, não apenas por tudo o que foi escrito acima, mas sobre tudo pela qualidade e criatividade da sua linguagem, onde a procura da palavra certa, é sempre o veio condutor do seu processo de criação.

Por ser inquieto, busca outras palavras, e cria palavras novas como: Fulinaíma, Fulinaímicas, 

Fulinaimânicas, Fulinaimagem.

 Ou: Sagarânica, Sagarínica, 

SagaraNagens. 

Numa nova edição do Dicionário do Aurélio, com certeza estes neologismos não poderiam faltar.

O seu último livro SagaraNAgens Fulinaímicas, como bem escreveu Tanussi Cardoso, é "um rio de palavras", que escorrem caudalosamente de sua escrita direto para o infinito do papel, e dele para as nossas indagações,  porque sua poesia impregnada de metáforas, não nos deixa em outros estado emocional a não ser se perguntar onde foi que encontrou tanta invenção poética.

em 2016 Artur Gomes, dirigiu o Curso de Artes Cênicas - O Espelho, no SESC Campos-RJ, com foco de pesquisa no Teatro do Absurdo de Fernando Arrabal, onde pretende até dezembro apresentar o espetáculo: A Nossa Casa É Um Teatro. Dirige também atualmente o Departamento de Áudio Visual do Proyecto Cultural Sur Brasil, instituição que desde 1996 realiza em Bento Gonçalves-RS o Congresso Brasileiro de Poesia.

foto: Welliton Rangel 

Artur Gomes – testemunho

poeta.ator.produtor cultural. diretor de teatro. cineasta.


eu venho da tipografia tradicional, onde para o ato de imprimir tínhamos que catar tipos. acredito que o meu fazer poético nasceu também dessa experiência que me acompanhou por 4 anos durante o ensino Fundamental na Escola Técnica Federal de Campos (hoje IFF), e por mais 20 anos, como linotipista na Oficina de Artes Gráficas da mesma Escola Técnica Federal de Campos.

Quando me compreendi poeta, e ao mesmo tempo sendo linotipista, aproveitei esse conhecimento para digitar na própria Linotipo os meus primeiros poemas, e imprimir em formato livro: Um Instante No Meu Cérebro - 1973.


Com o teatro, aprendi a trazer a palavra escrita para a oralidade, a Poesia Falada, e quando criei em 1983 o projeto Mostra Visual de Poesia Brasileira, o meu objetivo era já, trazer a poesia para as múltiplas plataformas possíveis para a sua comunicação com o outro.


Além das plataformas papel/corpo, levei um tempo imprimindo poesia em tecido, madeira, vidraças, muros, paredes, árvores, postes, e como disse Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas, a vida é etc, etc, etc...


Desde então utilizo das mais diversas possibilidades de linguagens onde possa estar com poesia, e isso me levou ao áudio visual, que é a extensão de tudo que já fiz, e tudo o que faço hoje tentando levar a Poesia aos mais ínfimos territórios do planeta.


 Campos ex-dos Goytacazes, 25 de novembro de 2016.



Até onde teus segredos me aceitam?
Até quando teus mistérios me pertencem?
Até onde teus silêncios tem meus gritos?
Quando me deixas aflito
Perco o chão por onde pisa
Por onde teu pé desliza
Que não sei quando ele está?
E se perco teus pés de mim
     Por onde vou caminhar?


Jura secreta 1

a língua escava entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica/sagarínica
algumas vezes muito prosa
outras vezes muito cínica

tudo o que quero conhecer:
a pele do teu nome
a segunda pele o sobrenome
no que posso no que quero

a pele em flor a flor da pele
a palavra dandi em corpo nua
a língua em fogo a língua crua
a língua nova a língua lua

fulinaímica/sagaranagem
palavra texto palavra imagem
quando no céu da tua boca
a língua viva se transmuta na viagem

Artur Gomes
do livro Juras Secretas
Editora Penalux - 2018


imagem: Felipe Stefani

 Campos ex-dos Goytacazes, 25 de novembro de 2016.

 


Com Os Dentes  Cravados na m

Memória 

Há algum tempo venho escrevendo alguns textos com este  título para contar um pouco da minha trajetória de andanças poéticas p0r  este país afora. Não sei se um dia isto vai se transforma em discurso memorialista, mas pelo menos vai servir para quem lê, entender que poesia se produz com vivências. 

Na ACL  Com Os Dentes Cravados na Memória, será um recital de poesia, com um passeio dos anos 80 para cá, com a poesia presente nos livros: Suor & Cio, Couro Cru & Carne Viva, CarNAvalha Gumes, BraziLírica Pereira: A Traição das Metáforas e SagaraNAgens Fulinaímicas. 

A idéia de transformar esse passeio poético em recital surge em setembro de 2016 quando em Bento Gonçalves-RS, na abertura do XXIV Congresso Brasileiro de Poesia é anunciado que serei um dos  poetas homenageados em 2017. 

Na ACL aceitando o convite do meu grande amigo Hélio de Freitas Coelho, pretendo além de falar meus poemas desse  período, prestar também a aminha homenagem ao meu grande amigo e poeta que partiu para outras esferas do planeta: Ferreira Gullar. 

Como há empos não tenho um encontro com o público de Campos, pretendo também bater um papo, sobre arte e poesia, linguagem,  dentro do que tenho produzido em minhas andanças, onde se inclui também o Audiovisual.

  

tecidos sobre a terra

 

Terra,
antes que alguém morra
escrevo prevendo a morte
arriscando a vida
antes que seja tarde
e que a língua
da minha boca
não cubra mais tua ferida

 

entre/aberto
em teus ofícios
é que meu peito de poeta
sangra ao corte das navalhas
e minha veia mais aberta
é mais um rio que se espalha

 

amada de muitos sonhos
e pouco sexo
deposito a minha boca no teu cio
e uma semente fértil
nos teus seios como um rio

o que me dói é ter-te
devorada por estranhos olhos
e deter impulsos por fidelidade

 

ó terra incestuosa
de prazer e gestos
não me prendo ao laço
dos teus comandantes
só me enterro à fundo
nos teus vagabundos
com um prazer de fera
e um punhal de amante

 

minha terra
é de senzalas tantas
enterra em ti
milhões de outras esperanças
soterra em teus grilhões
a voz que tenta – avança
plantada em ti
como canavial que a foice corta
mas cravado em ti
me ponho a luta
mesmo sabendo – o vão
estreito em cada porta

 

MOENDA

 

usina
mói a cana
o caldo e o bagaço

usina
mói o braço
a carne o osso

usina
mói o sangue
a fruta e o caroço

tritura suga torce
dos pés até o pescoço

 

e do alto da casa grande
os donos do engenho controlam
: o saldo e o lucro

Artur Gomes

FULINAÍMA MultiProjetos

 

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Artur Gomes 77

  27 de agosto com muito gosto fazer setenta e sete outra coisa me disse fulinaíma pra definir o que faço o traço a cada compasso pensado se...