o barro de alguns barracos
continuam entranhados na carne como nomes tapera cacomanga cupim
queimado cambaíba ururaí olinda morro grande santa cruz quilombo lagamar guriri
trago a poeira na sola dos meus pés o sangue das pessoas trouxe impregnados nas
unhas Vampiro SerAfim Goytacá Tupiniquim
no branco do papel
deponho a faca a foice navalha canivete já fui moleque pivete das esquinas dos
bordéis da rua do vieira paraíso perdido joazeiro coqueirinho nas mallarmargens
da BR
já fui do breque dos pandeiros das cuícas do couro cru na carne viva goytacá boy perdido na paulista roubei poemas dos piva para vender nas lanchonetes mar a vista em bertioga e o coisa ruim do ademir continua na ponta da língua da memória
quando criança brincava nos sonhos com cobras de pique esconde no porão da casa onde aprendi a enxergar clara/luz na escuridão quando seus olhos de vidro viraram espelhos para os meus numa madrugada 27 agosto 1948 datas também me acompanham desde que vi o primeiro clarão diurno quando o trem passou para dores de macabu
quando estive na bolívia senti o cheiro de corumbá ali de perto em assunção do paraguai porto viejo canavarro o barro vermelho no carnaval pelas fronteiras cerveja com caldo de piranha a dona de um bordel no pantanal chamava os jacarés com nomes de jogadores de futebol quando perdi o avião pra boa vista
na argamassa
do abstrato
no abstrato
do concreto
sou
um vampiro bêbado de sangue
que assassinou os alpharrábios
para inventar seu alphabeto
lançamento dia 29 de novembro
Sarau Gente de Palavra - São Paulo-SP
Local: Patuscada - Livraria Bar &
Café - Rua Luis Murat, 40,
tem noites que a lua cheia me chega com sangue entre os dentes com
aquele gosto de veneno escorrido das serpentes tem dias que as serpentes me
chegam com gosto de lua cheia

ouço a música
nesse disco estrangeiro
e a musa tem o nome: Guanabara
no silêncio ela ri da nossa cara
a flor do mangue agora mora
onde seu leito jorra lama
por sua boca desdentada
peixe podre explode Angra
em meu poema CarNAvalha
naturalismo onde supunha
sal da terra no esgoto
eco sistema não interessa
ao senhor do Mato Grosso
agro-negócio é matadouro
soja pasto para os bois
o simbolismo da escrita é só
metáfora
a concretude o modernismo vem
depois
Artur Gomes
O Poeta Enquanto Coisa
Editora Penalux – 2020
Leia mais no blog https://ciadesafiodeteatro.blogspot.com/
O ator, produtor, videomaker e agitador
cultural Artur Gomes acumula uma
bagagem de 50 anos de carreira com prêmios nacionais e internacionais em
teatro, música, literatura e artes gráficas. Gomes poderia se filiar na
tradição literária dos chamados poetas malditos, como comumente e
simplistamente nos referimos àqueles autores que constroem uma obra “rebelde”
em face do que é aceito pela sociedade, vista como meio alienante que aprisiona
os indivíduos em normas e regras. Tais autores rejeitam explicitamente regras e
cânones. Rejeição que se manifesta-se também, com a recusa em pertencer a qualquer
ideologia instituída. A desobediência, enquanto conceito moral exemplificado no
mito de Antígona é uma das características de tais sensibilidades poéticas, que
no Brasil já vem de longe com um Gregório de Mattos e ganhou impulso e
seguidores com o famoso trio da “parafernália” rebelde: Verlaine, Baudelaire e
Rimbaud.
Já
tivemos oportunidade de observar em outras obras do autor, que suas construções
poéticas seguem sempre renovadas para cima em matéria de criatividade,
elencando uma variada diversidade temática que aborda, sempre em perspectiva
ousada e radical, desde o doce e suave sentido do amor, ao cruel da relação
amorosa, flertando com o libidinoso, e questões existenciais que expressam
indignação, desobediência e transgressão. É que, explica ele: “arde em mim / um
rio / de palavras / corpo lavas erupção / mar de fogo / vulcão”. Outra faceta do autor, digna de nota, é a
criação de vários heterônimos como sejam Federico Baudelaire, EuGênio Mallarmè
ou Gigi Mocidade, talvez a mais irreverente de todos, porque fala a bandeiras
despregadas, sem papas na língua. “Muitas vezes a língua pulsa pula para o
outro lado do muro outras vezes a língua pira punk nesses tempos obscuros às
vezes a língua Dada vai rolando dados nesse jogo duro muitas vezes a língua
dark jorra luz nas trevas desse templo escuro”.
E aqui temos afinal, mais uma obra
desse múltiplo e incansável poeta que caminha com uma flor na boca, símbolo
universal de amor, de paz e beleza. A ele não importa verdadeiramente por quais
meios: “se sou torto não importa / em cada porta risco um ponto / pra revelar
os meus destroços / no alfabeto do desterro / a carnadura dos meus ossos”. É
poética que, para além de perquirir as dores e delícias da condição humana em
si, envereda pelo viés de nossa condição social sempre ultrajada. Encontramos
um poema que nos pergunta: “quem
se alimenta / dessa dor / desse horror / desse holocausto // desse
país em ruínas / da exploração dessas minas / defloração desse cabaço // quem
avaliza o des(governo / simboliza esse fracasso?”
Artur Gomes segue sua árdua caminhada,
agora com o poderoso concurso da maturidade que lhe chega. Segue emprestando
sua voz aos deserdados, aos desnutridos, aos que têm sede, aos que têm fome, ou
aos que morrem assassinados nos guetos, nos campos, nas cidades por balas de
fuzil, desse país que tarda em referendar a cidadania.
Krishnamurti Góes dos Anjos - Escritor e crítico literário.
Leia mais no blog https://fulinaimatupiniquim.blogspot.com/
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